SANTÍSIMA TRINDADE (Jo 16, 12-15)

INTRDUÇÃO: Celebra a Igreja a solenidade da Santísssima Trindade. Como em todas as afirmações sobre a Divindade podemos assegurar que as negativas são verdades conhecidas e indiscutíveis: Deus não é matéria, por exemplo. Sabemos o que é matéria e podemos entender a negação da mesma. Mas as afirmativas são análogas ou expressas em termos de semelhança: Deus é espírito. E quem pode afirmar realmente que coisa é espírito quando tantos negam sua existência? Consequentemente é uma firmação em que se deve entrar a analogia, e se deve deixar lugar a um simbolismo exemplificativo para explicar o que não podemos entender de modo próprio. É como se a um cego de nascença alguém explicasse a diferença entre as  cores: O vermelho é excitante. O amarelo é calmante, diríamos. Mas ele nunca poderia entender o que nós tentamos explicar.

 

Também podemos afirmar de Deus diversos atributos como o Poder, a Sabedoria, a Bondade, abstraindo essas qualidades dos objetos de suas obras. Mas que significam tais atributos, separados, num Deus que é Uno? Por que afirmamos que ele é também Trino? A Igreja, servindo-se dos termos filosóficos [científicos] da época, fala de uma única natureza e de três pessoas. Até agora não temos encontrado melhores definições.

 

 Das expressões evangélicas temos que existe um Pai, que tem um Filho e que entre ambos enviam um Espírito, a suprir a existência humana do Filho entre os discípulos até o fim dos tempos. Com uma tenacidade que perdurou séculos, os teólogos, cientistas da Revelação, têm ampliado estas definições simples para descobrir em Deus as duas operações que chamam processões ou processos [não procissões] e que estas se efetuam tendo como exemplos para nós, a operação do intelecto e a  que surge do amor. No final citamos um exemplo da ciência moderna dentre as bases últimas, os chamados tijolos, que constituem a matéria: os quarks. No evangelho de hoje entram as três pessoas, Pai, Filho e Espírito para afirmar que Pai e Filho têm tudo em comum, ou seja uma mesma vida, que podemos trasladar em termos filosóficos como natureza comum, e que o Espírito tem com o Filho uma comunidade de pensamento e de atuação,  por tê-los recebido diretamente do Filho, que por sua vez os recebeu do Pai. Comunidade intelectual e união de vontades que é o mesmo que vida entre espíritos. È uma forma simples de pregar a Trindade entre “seres” [pessoas] que constituem uma unidade de vida.


NÃO PODEIS SUPORTAR: Ainda muitas coisas tenho a dizer-vos, mas não podeis sobrelevar neste momento(12). Adhuc multa habeo vobis dicere sed non potestis portare modo. Em Jo 15, 15, Jesus afirma que tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer. Como é que agora afirma que há coisas que agora, neste momento, não podeis sobrelevar (entender)? Logicamente parece que Jesus alude a um acontecimento histórico que eles não conseguem entender por agora. É de se supor que o tal acontecimento seja a paixão e morte de Jesus que naturalmente deveria destruir toda fé nele inspirada, como era a de ser o Messias; pois, no lugar de triunfo, oferecia uma devastadora derrota.

 

Quando observamos um grafito romano da época em que o crucificado era representado com rosto de asno, podemos afirmar que ante os olhos, não iluminados pela presença do Espírito da Verdade, esta última [a verdade] seria tão brutal que não poderia ser aceita (o bastazo grego) pelos discípulos. Não só a inteligência dessa verdade que mais parecia um absurdo, até do ponto de vista da antiga revelação [era uma maldição para os judeus, segundo Paulo], mas a sua pregação era impossível por falta de coragem dos discípulos para enfrentar a oposição e a perseguição. Tudo isso terminaria com a força do poder do Espírito Santo. Daí a promessa e a necessidade de sua presença na Igreja.


ESPÍRITO DA VERDADE: Quando portanto tiver chegado aquele Espírito da verdade, vos conduzirá a toda a verdade pois na falará por si mesmo, mas todas as coisas que tiver ouvido falará e as que estão por vir vos anunciará(13). Cum autem venerit ille Spiritus veritatis docebit vos in omnem veritatem non enim loquetur a semet ipso sed quaecumque audiet loquetur et quae ventura sunt adnuntiabit vobis.

 

 AQUELE ESPÍRITO: O qualificativo desse Espírito [da verdade] aparece também em 14, 17 e 15, 26. Sua função vai precedida por quando, porém, vier [melhor tiver vindo, em aoristo]. Jesus fala de aquele Espírito, porque, na realidade, se referia a uma anterior citação na que tinha falado. Isso nos leva a unir o Espírito com a ausência de Jesus na vida apostólica, e também com a aceitação da verdade, tão difícil sem essa presença, que exige uma verdadeira liderança explicativa, ou se quisermos uma nova abertura à verdade, como quem demonstra a realidade e oportunidade da mesma num futuro próximo. Por isso, Jesus afirma que esse Espírito (pneuma) é causa e chefe da verdade.

 

Ele terá uma função especial, sem a qual essa verdade não seria aceita: Ele será como o guia a conduzir (odegeo= levar pelo caminho) os discípulos para aceitar como norma de vida a verdade que os fatos em breve a acontecer encerram (o futuro do versículo 13), e que agora os discípulos não poderiam tolerar. Poucos instantes antes, Jesus tinha oferecido aos apóstolos uma visão desse Espírito que então chamou de Advogado (parákletos no ver 7).

 

 Sua atuação era convencer, como se faz num tribunal público, da inocência de Jesus e da culpabilidade dos seus algozes. Falando de convencimento, os primeiros a serem convencidos eram os próprios apóstolos, da verdade, na causa da qual seriam propagadores. Este Jesus - dirá Pedro, convencido e atuando como acusador - vós o matastes, crucificando-o pelas mãos dos ímpios (At 2, 23). GUIAR-VOS-Á: A função, pois, do Espírito, que aqui aparece como pessoa, e não unicamente como atributo ou qualidade dos apóstolos, é mostrar o caminho para a verdade, daí o eis (para). Essa verdade era a total, que, sem a liderança do Espírito, seria impossível compreender. A verdade não se impõe, mas é preciso buscá-la e nessa busca o Espírito oferece sua ajuda, sem a qual jamais chegaríamos a encontrá-la.

 

É a verdade total (pasa) pois parte dessa verdade, da qual Jesus forma a totalidade, pode ser encontrada por outras pessoas fora do círculo religioso do colégio apostólico. Porém a verdade total sobre Jesus, o Cristo e Filho de Deus, só é possível vê-la através da iluminação recebida pelo ESPÍRITO DA VERDADE, sobrenome com o qual Jesus o designa. NÃO FALARÁ POR SI MESMO: A preposição apo significa desde ou tendo como causa a si mesmo. A melhor tradução é a que existe como comparação com Jesus em 12, 49 em que este afirma que suas palavras não eram próprias mas prescritas pelo Pai que o enviou. Assim também o Espírito falará do que ouviu [em passado aoristo, no grego]. A questão está em quem falou para ser escutado pelo Espírito: Jesus ou o Pai. Veremos a explicação no próximo versículo.

 

REVELARÁ AS COISAS FUTURAS: Como estamos sempre à caça de profecias, sempre pensamos nas mesmas. Mas parece que esse futuro é o tempo em que Jesus não mais estará com os discípulos e estes terão que interpretar assuntos tão graves e cheios da incerteza como a paixão e morte de Jesus. Como transformar o que evidentemente era uma derrota, em vitória ou glória, como reclama o evangelho de João(13, 31)? Essa seria a obra do Espírito. O verbo usado não é precisamente o de revelar mas o de anunciar (anaggello). O verbo indica re-anunciar, repetir de novo, ou melhor conclamar, à diferença do aggello, simples anúncio. Na LXX é frequente em Isaías onde o encontramos 57 vezes como no caso de quem, entre os outros, anunciou estas coisas? Ou em 44, 7 e em 45, 19. Já no NT em João aparece 6 vezes, três neste trecho de hoje com o significado de revelar algo novo, como em 4, 25 em que a samaritana afirma que o Messias revelará ou declarará tudo.
DE MIM RECEBERÁ: Ele me glorificará porque de minha parte receberá e vos anunciará(14). Ille me clarificabit quia de meo accipiet et adnuntiabit vobis.

 

 ME GLORIFICARÁ: A glória de Jesus provindo do Espírito é que este último anuncia o que tomou de Jesus como enviado. Uma missão semelhante à que Jesus tinha como recebida do Pai. Assim como Jesus glorificou o Pai concluindo a obra que lhe foi encarregado por este último(Jo 17, 4), o Espírito glorificará o Filho, concluindo a obra deste, anunciando o recebido como incumbência para que os discípulos não pudessem esquecer as verdades fundamentais por Jesus proclamadas. O Espírito é pois um enviado do Filho, Jesus para os apóstolos no nosso caso. UNIDADE DAS TRÊS PESSOAS: Todas quantas coisas tem o Pai, são minhas. Por isso, disse que de minha parte receberá e vos anunciará(15). Omnia quaecumque habet Pater mea sunt propterea dixi quia de meo accipit et adnuntiabit vobis.

 

O QUE O PAI TEM É MEU: O sentido não é de ter como atributos naturais, de modo a indicar uma única natureza entre Pai e Filho, mas de comunicação. Jesus está falando de uma revelação de acontecimentos futuros, e planos divinos sobre sucessos que precisamente vão definir a atuação divina na história humana, mudando pactos e verdades tradicionais. E é nesse ponto que Pai e Filho coincidem. Aquele como desenhador do plano, este como obediente executor do mesmo.

 

É por isso que Jesus dirá que o Espírito toma do que é meu (do meu ofício de comunicador) e vo-lo anunciará. Em definitivo, o Espírito- inspiração, sopro de vida, vento vital, iluminação interior- como vemos em João 3, 8-19 será o novo Mestre que interiormente formará os discípulos, uma vez terminadas as atuações da paixão e morte de Jesus para continuar os ensinamentos do antigo Preceptor sem que exista interrupção ou novidade que retifique o caminho (nome recebido pelo primitivo cristianismo) que Jesus mostrou a seus discípulos durante sua permanência entre eles.

 

Caminho, único verdadeiro, porque os ensinamentos de Jesus provinham todos do Pai e os conhecimentos do Espírito procedem todos de Jesus. Jesus glorifica o Pai manifestando sua verdadeira Natureza aos homens e o Espírito glorificará o Filho ao revelar a verdadeira Natureza do mesmo. Porque assim como o Filho é emissário do Pai, o Espírito será de hora em diante emissário do Filho. E assim como o Pai permanece em Jesus e é aí onde manifesta suas obras (Jo 14, 10), o Espírito permanecerá neles [os discípulos] (14, 16) e é com eles que Jesus realizará sua obra. Em seu humilde serviço, ambos, Filho e Espírito, serão glorificados como disse Jesus: Pai, chegou a hora: glorifica teu Filho, para que teu Filho te glorifique (17, 1). Glorificação e cruz serão uma mesma coisa.

 

 E a glorificação, que tem como fonte o Espírito, são as obras dos discípulos: Meu pai é glorificado quando produzis muito fruto (15, 8). Por isso, Ele [o Espírito] me glorificará porque receberá do que é meu e vos anunciará (16, 14). Por outra parte sabemos que a obra com a qual Pedro, de modo especial, daria glória a Deus era sua cruz (21, 19). Em resumo: Assim como pela cruz Jesus cumpriu sua obra de glorificação do Pai, porque mostrou ao mundo a maior das obras divinas que é o amor de Deus aos homens (3, 14-16), será também pelo martírio dos discípulos que estes demonstrarão seu amor a Jesus. Martírio também em sentido pleno, pela entrega total aos homens dos que chamamos confessores, que o Espírito mostrará de modo convincente, porque Ele conduz seus eleitos num mundo ausente de verdadeiro amor.

 PISTAS:

1) O labor escondido do Espírito na Igreja é manifestado pela sua voz interior que transforma o homem para este transformar suas circunstâncias. Ao contrário dos grandes planos do mundo que querem transformar as circunstâncias, enriquecendo as nações, para melhorar os homens. Mas o resultado é a pobreza interior que é provocada pela riqueza extrema.


 2) A verdade completa sobre Deus e seu Cristo só pode ser compreendida sob a ação do Espírito Santo. Com um mesmo evangelho, há quem o toma como Francisco, sem glosas, e transforma o homem em santo, e há quem, através das glosas, escutam suas próprias idéias e opiniões como inspiradas, quando é a ambição ou o orgulho os que as ditam.


3) Assim, descreve S Atanásio, A Trindade como eficiência operativa, mais do que como essência existente. Aliás os modernos preferem o para que [operação] ao que [essência]: O Pai cria todas as coisas por meio do Verbo, no Espírito Santo....Reina sobre tudo como Pai, princípio e origem; age em tudo, por meio do Filho e permanece em todas as coisa no Espírito Santo.
 

EXEMPLO: Hoje, dia da solenidade da Santíssima Trindade, a Igreja nos propõe como contemplação a ser admirado, um dogma que diferencia os cristãos de outras religiões monoteístas que admitem uma única natureza em Deus, mas rejeitam as individualidades ou pessoas no mesmo. Por isso vamos tentar explicar os termos e, por meio de um exemplo, ilustrar o que sempre permanecerá um mistério: A física moderna fala de prótons, nêutrons, etc como partículas elementares. Mas na realidade as partículas mais elementares são os quarks. Cada próton ou nêutron está formado por três quarks.

 

Estes se distinguem entre si pela carga elétrica, que os distingue entre up (acima) down (embaixo) e strange (estranho). Dentro de cada próton, por exemplo, realizam-se duas operações que recebem o nome de sabor e cor, qualidades que eles entre si mudam constantemente de modo a gerar forças de coesão que os mantêm unidos numa mesma partícula. Mas vamos ao caso particular da partícula delta. Ela está formada por três quarks idênticos em tudo, exceto a cor. Pela lei da cor nula ou branca, a soma das três cores deve dar essa cor que é a única encontrada na natureza.

 

Do mesmo modo as três Pessoas se diferenciam entre si pela relação [cor] dentro da Trindade; mas é a cor branca da união em uma divindade a que atua como um todo fora do círculo íntimo, e portanto não se pode observar a diferenciação pessoal, que só existe no interior da Divindade (Eu e o Pai somos um). Em resumo: o que estas pessoas têm em comum? A natureza. O que as diferencia? A personalidade que depende de dois processos havidos dentro do círculo divino de Poder, Sabedoria e Bondade. Esse Poder, Sabedoria e Bondade são comunicados e compartidos no círculo divino, ao qual foi chamado pessoalmente Jesus e seremos chamados como participantes os Bem-aventurados.

 

FRASE: A existência do mal é uma consequência lógica de que Deus ama os pecadores e não deseja sua destruição, mas espera sua conversão (anônimo).
 
 
 

Fonte: (Pe Ignácio, dos padres escolápios)
Postado por: Bruno Souza Nogueira , em 08/12/2009
Artigo nº: 214 Categoria: Exegeses
Titulo do Artigo: SANTÍSIMA TRINDADE (Jo 16, 12-15)

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