OS SACRAMENTOS: COMUNICAÇÃO TRANSFORMADORA DE DEUS

1. Superficialidade e profundidade da vida

 

a) Superficialidade e insegurança

Quando a vida perde suas raízes e ignora suas sementes, se converte em algo tão vazio que realmente chega a ser insuportável. Esta parece ser a situação de muitos de nossos contemporâneos, a superficialidade e o imediatismo que levam à perda do sentida da vida.

 

O homem que perdeu o contato com a dimensão da profundidade e com a dimensão histórica é um homem inseguro. Facilmente, encontrará inúmeros vendedores de seguranças que o motivarão a buscar a força no consumismo, nas propostas salvíficas das seitas ou nos produtos religiosos seguros e secularizantes.

 

b) A dificuldade da comunicação

Em nossa sociedade existe uma notável carência de comunicação interpessoal, constatável em diferentes ambientes: nas famílias, entre os casais, nas comunidades, nos ambientes de trabalho, etc.

 

A comunicação não é fácil. Muitas vezes não chega a manifestar a própria profundidade nem a captar a dos outros, ou porque não existem as condições adequadas, ou porque não se conhece a dinâmica da comunicação, ou simplesmente por preguiça. É mais fácil ficar na superfície, nas aparências.

 

Uma das dificuldades para a comunicação está no fato que é preciso que ela aconteça necessariamente através de mediações tais como gestos, palavras, símbolos. E nem sempre estas mediações são lidas corretamente em toda sua profundidade, como portadoras da interioridade do outro.

 

São João afirma: “Quem não ama seu irmão a quem vê, não pode amar a Deus que não vê” (1Jo 4, 20). Seguindo a mesma lógica, se poderia dizer: “Quem não é capaz de estabelecer relações profundas e transformadoras com os demais, como poderá estabelecer uma relação sacramental com Deus”.

 

c) O acesso à profundidade

Se quisermos viver uma vida cheia de sentido, é preciso superar as dificuldades da comunicação e entrar na profundidade dos outros e, sobretudo, do Outro, de Deus.

Os Sacramentos são uma forma de linguagem, feita de gestos e palavras, que permite ao homem o acesso à profundidade: isto é, achegar-se a Deus como fonte de todo ser, como semeador de vida, como a raiz de toda fraternidade e comunicação humana.

A vida cotidiana oferece mil ocasiões para exercitar-se na difícil arte de ir ao fundo das pessoas, de não ficar naquilo que dizem, mas chegar ao que querem dizer; não ficar naquilo que fazem, mas chegar ao que são.

 

2. Comunicação transformadora

A comunicação humana e suas condições

Muitas relações humanas não pouco enriquecedoras. Porém, às vezes, podem acontecer relações em que se estabelece uma comunicação profunda e então resultam realmente transformadoras. Algo novo acontece na vida das pessoas que se relacionam entre si.

Para que isso aconteça são necessárias algumas condições.

 

* reconhecer a existência do outro; crer nele, considerado válido, fixar-se nele, pensar que com sua contribuição pode enriquecer e tornar rica nossa vida.


* vontade de estabelecer uma relação; afirma o ditado popular que “dois não brigam quando um não quer”. Porém é também verdade que dois não chegam a ser amigos se um não quer. Mistérios da liberdade! Uma relação positiva não é algo que acontece em nós se nós não queremos. Quando acontece, é sempre fruto de uma escolha e de uma vontade de continua-la de ambas as partes;


* uma sintonia espiritual; é uma atitude que predispõe à comunicação. Cria uma “área comum” em que o encontro e o intercâmbio da própria vida é possível. Sem sintonia espiritual será possível o intercâmbio de informação, porém jamais o intercâmbio da própria interioridade;


* umas mediações que permitam comunicar conteúdos profundos e pessoais; as mediações são imprescindíveis porque ninguém tem acesso direto ao interior do outro. Por exemplo, o sentimento de amizade não é tangível, porém da maneira como se aperta a mão, este gesto pode ser uma mediação que manifesta amizade. As palavras e os gestos, intimamente relacionados entre si, constituem as mediações básicas da comunicação humana. Palavras que explicam o sentido dos gestos e gestos que realizam o conteúdo das palavras. Toda a corporeidade humana pode ser palavra. Também as coisas podem converter-se em palavra quando entra em jogo a comunicação inter-pessoal: a flor como presente, o pão repartido, o vinho partilhado.

 

A comunicação com Deus e suas condições

 

A chave correta para entender os Sacramentos é vê-los como mediações através das quais Deus quer entrar em contato com os homens para lhes comunicar a própria vida, purificando e enriquecendo a vida deles.

 

Não se trata de vê-los como ritos para aplacar a Deus, nem como normas que devem ser cumpridas para ganhar o céu, nem como gestos mágicos para se apoderar da força de Deus ou descarregar a própria consciência.

 

Em toda celebração sacramental, Deus vem ao encontro do homem através dos gestos e das palavras da Igreja. Portanto é preciso:

 

1º) Que o homem acredite em Deus.

Os sacramentos sempre nascem da fé. E a fé em Deus não é simplesmente afirmar que Ele existe. É crer que seu amor incentiva a partilhar a vida dEle com o homem. É crer que o homem não pode realizar sua humanidade se não estiver em contato com Deus.

Então o que sobra de um sacramento que não nasce de uma fé viva? Só umas fórmulas sem conteúdo, um invólucro vazio e sem alma.

 

2º) Vontade de responder livremente à interpelação de Deus. Não é suficiente que Deus dê o primeiro passo. É preciso que o homem se deixe alcançar e aperte a mão que lhe é estendida. Deus não quer escravos nem prisioneiros. Quer amigos, quer filhos que assumam e desenvolvam livremente sua condição de filhos. Deus assume com toda seriedade sua oferta de graça. Porém, se o homem livremente não faz o esforço de assumi-la e integrá-la em sua existência, esta graça ficará sempre à margem da vida do homem.

 

3º) Sintonia espiritual.

É o Espírito de Deus o que prepara o encontro com Ele. O Espírito cria uma misteriosa sintonia entre Deus que convida e o homem que se sente atraído. É também o Espírito quem capacita para captar, através dos sinais de Deus, o Deus dos sinais.

 

4º) Deus jamais foi visto por alguém.

Nosso único modo de entrar em contato com Ele são as mediações que ele mesmo escolheu para vir ao nosso encontro: suas obras na criação, suas intervenções salvíficas em benefício de seu povo, seus dons, seus profetas. E como ponto mais alto de todos eles, Jesus de Nazaré, seu Filho amado, sua Palavra que se fez homem. E a Igreja, corpo de Cristo, como prolongamento e visibilidade dEle na história.

Os gestos que realiza Cristo através de sua Igreja para comunicar a vida de Deus são os que chamamos de Sacramentos


Postado por: Bruno Souza Nogueira , em 08/12/2009
Artigo nº: 272 Categoria: Catequese
Titulo do Artigo: OS SACRAMENTOS: COMUNICAÇÃO TRANSFORMADORA DE DEUS

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