Obs.: o texto que segue é um resumo do artigo “Conselhos Evangélicos – Reflexão Teológica” publicado por Severino M. Alonso Rodrigues in Dicionário Teológico da Vida Consagrada, São Paulo, Paulus, 1994, pgs. 274-290
1) RAZÃO TEOLÓGICA
1.1. Fato de Vida na Igreja
A vivência da virgindade-pobreza-obediência de Jesus Cristo é fato de vida que existe na igreja desde suas origens.
O estado religioso:
- seguindo e imitando a Cristo-virgem-pobre-obediente, revive e prolonga eclesialmente o modo de vida e existência (proexistência) do próprio Cristo;
- é teológico antes de ser jurídico e canônico;
- os conteúdos teológicos são permanentes;
- as formas jurídicas devem adaptar-se às diversas circunstâncias de lugar e tempo em resposta às aspirações e necessidades dos homens de cada época.
A vida religiosa é acontecimento eclesial porque nasce na igreja e para a igreja.
1.2. Experiência Antes que Doutrina
A vida religiosa é experiência cristã muito antes de ser uma doutrina elaborada e um sistema de pensamento teológico. A vivência precede a reflexão doutrinal e sistemática.
A vida religiosa sempre quis imitar e seguir a Jesus em sua virgindade-pobreza-obediência como expressão da plena doação de si mesmo a Deus e aos irmãos e irmãs.
1.3. Conselhos Evangélicos e Perfeição da Caridade
O Concílio Vaticano II afirma que todos somos chamados à santidade, que por sua vez, consiste na perfeição da caridade.
A perfeição da caridade é:
- amar como Deus ama;
- amar a Deus e ao próximo a exemplo de Jesus e Maria.
Os conselhos evangélicos constituem a perfeição da caridade enquanto são exercício, prova e demonstração de amor total a Deus e ao próximo.
1.4. O Concílio Vaticano II e a Teologia Pós-Conciliar
No Vat. II, o texto fundamental que trata dos religiosos é o cap. VI da LG. Os pontos mais importantes tratados pelo concílio são:
- a origem divina dos conselhos evangélicos como sendo anterior a todas as formas históricas;
- a inclusão da VR na constituição original da igreja, como elemento necessário de sua vida e de sua santidade;
- atribuição à dimensão pneumática da igreja;
- exclusão da mentalidade que considerava a VR como estrutura de origem humana.
A teologia pós-conciliar destaca a dimensão cristológica como a mais nuclear, mais fecunda e decisiva para determinar a identidade teológica da VR. Outros pontos essenciais a serem destacados são:
- seguimento evangélico de Jesus Cristo, que é o conteúdo essencial e a norma suprema da VR;
- origem divina-cristológica, dos conselhos evangélicos;
- dimensão eclesial;
- consagração de toda a pessoa, por meio da profissão religiosa;
- dimensão carismática-profética-testemunhante-escatológica;
- vida comunitária ou comum-união com Cristo;
- unidade “ação-contemplação” – dimensão contemplativa e apostólica de toda forma de VR;
- presença real no mundo e opção preferencial pelos pobres.
2) UMA FÓRMULA CLÁSSICA: os Três “Conselhos” Evangélicos
2.1. A Fórmula e o Conteúdo
A bem da verdade, o essencial é o desejo sincero de viver todo o evangelho em sua autenticidade. É seguir e imitar a Cristo radicalmente e de maneira incondicional.
A fórmula: a famosa trilogia só aparece de modo explícito nos fins do séc. XII e inícios do séc. XIII.
O conteúdo: foi compreendido e vivido desde o princípio da igreja.
2.2. Análise e Crítica – a Verdadeira Significação
É correto, ainda hoje, falar de três conselhos evangélicos?
A fórmula dos conselhos evangélicos em sua trilogia é correta desde que se compreende verdadeiramente o que com ela se quer afirmar.
Com a clássica trilogia pretende-se expressar:
- a totalidade da pessoa humana;
- a totalidade da vida de Cristo;
- a totalidade das exigências do Reino.
A virgindade-castidade, a pobreza e a obediência, retamente entendidas, e pelo conteúdo e significado que tiveram na vida de Jesus, expressam tudo o que a pessoa é.
A pessoa é:
- capacidade de amar e ser amada – virgindade-castidade;
- capacidade de programar em liberdade a própria vida – obediência;
- capacidade e desejo de possuir e usar os bens deste mundo – pobreza;
Afirma Paulo VI: “Pelo reino dos céus, vós consagrastes a Cristo com generosidade e sem reservas, as forças de amar (castidade), o desejo de possuir (pobreza) e a faculdade livre de organizar vossa própria vida (obediência), que são bens tão preciosos para o homem” (ET 7).
A palavra conselho é exata?
A expressão “conselho” é equívoca e confusa. Sugere a idéia de algo facultativo.
Em se tratando da virgindade-pobreza-obediência, melhor seria falar de carismas. Tais como Cristo as viveu e como quis que fossem vividas na igreja, a virgindade-pobreza-obediência, são carismas, isto é, doações de graça concedida pelo Espírito Santo.
A virgindade-pobreza-obediência são realidades evangélicas?
São porque foram vividas por Cristo como dimensões constitutivas de seu projeto de vida e de sua existência. Tudo o que Cristo viveu é evangélico, é boa notícia e, de fato, o Evangelho é o próprio Cristo e sua vida.
3) ORIGEM E SENTIDO CRISTOLÓGICO
3.1. Origem Cristológica
A estruturação ou regulamentação jurídica, dos conselhos evangélicos, é de origem eclesiástica. Mas o conteúdo fundamental e o estado de vida que dele decorre é de origem divina-cristológica.
A pessoa de Jesus, em seu modo histórico de viver inteiramente para o Pai e para os irmãos (proexistência) é a razão definitiva e a origem viva dos conselhos evangélicos e da VR.
O Vat. II afirma: “A aspiração à caridade perfeita por meio dos conselhos evangélicos tem sua origem na doutrina e nos exemplos do Mestre divino” (PC 1; cf. LG 43).
O novo Código confirma: “Os conselhos evangélicos, fundados na doutrina e nos exemplos de Cristo Mestre, são um dom divino que a igreja recebeu do Senhor e que com sua graça conserva sempre” (c. 575).
Ademais, a vida de Jesus foi uma proexistência; seu existir foi um proexistir, existir em favor dos outros.
Desde modo, na VR, o que se pretende viver:
- não é simplesmente a castidade, mas a castidade de Cristo;
- não é a pobreza, mas a pobreza de Cristo;
- não é a obediência, mas a obediência de Cristo.
É natural que, no decorrer da história, existiram, existem e existirão outras formas de virgindade-pobreza-obediência. E nenhuma delas nos interessa, mas somente a que viveu Cristo.
Precisamos voltar às raízes, voltar à pessoa de Jesus Cristo-virgem-pobre-obediente.
3.2. Sentido Cristológico
Podemos explicitar o sentido cristológico dos conselhos evangélicos com a descrição das seguintes idéias:
- Amor total demonstrado: ao viver os conselhos evangélicos Jesus Cristo demonstrou o máximo amor ao Pai e aos irmãos;
- Doação total de si mesmo: amar é dar e, sobretudo, dar-se. Jesus é esta doação ao viver para os outros, para o Pai, para os irmãos e para o Reino;
- Vivência antecipada do sacrifício da sua morte: a virgindade-pobreza-obediência foram, na vida de Jesus, parte integrante de sua kénosis, do mistério de seu aniquilamento, que culminou na morte de cruz. De fato, o sacrifício de Cristo não foi oferecer vítimas e holocaustos, mas oferecer-se a si mesmo (Hb 7,27); não foi oferecer sangue de animais, mas seu próprio sangue (cf. Hb 9,12);
- Inauguração de “modo celeste de vida”: os conselhos evangélicos, em Cristo, foram antecipação de sua ressurreição gloriosa, prefiguração da nossa e inauguração neste mundo da vida celeste.
Para nós, também hoje, os conselhos evangélicos devem ter a mesma significação que tiveram em Cristo:
- expressão e demonstração do amor total ao Pai e aos irmãos;
- doação total de nós mesmos;
- revivência do aniquilamento de Cristo;
- antecipação e inauguração da vida celeste.
Professar a virgindade-castidade é comprometer-se a amar ao Pai e a todos os irmãos com o mesmo amor total.
Professar a obediência é comprometer-se, diante de Deus e dos irmãos, a viver em atitude de total docilidade à vontade amorosa do Pai e a acolhe-la filialmente como critério único de vida.
Professar a pobreza é viver a confiança absoluta no Pai, total disponibilidade aos irmãos e liberdade soberana com relação aos bens deste mundo.
4) CONSELHOS EVANGÉLICOS E REINO DE DEUS
4.1. Valor Absoluto e Disponibilidade Total
O Reino de Deus significa que Deus reina.
Na pessoa, na palavra, nas obras, na vida-paixão-morte-ressurreição de Cristo inaugura-se e estabelece-se o reino de Deus (cf. LG 5). Cristo é pessoalmente o Reino de Deus.
O valor do Reino é absoluto e definitivo. Vale a pena deixar tudo por causa do Reino.
Um sinal de conversão ao Reino é a disponibilidade total. Diante do Reino (Cristo) é necessário estar disposto a tudo, até mesmo sacrificar a própria vida. Crer no Reino (Cristo) é amá-lo sobre todas as coisas, preferi-lo a todos e a tudo:
- aos pais;
- aos irmãos;
- à mulher;
- aos bens materiais;
- e inclusive, à própria vida.
4.2. Disponibilidade Total: na vida secular cristã e na vida cristã religiosa
- Disponibilidade como atitude interior: trata-se do espírito e do conteúdo mais profundo da virgindade-pobreza-obediência, e supõe e é amar a Cristo mais que a si mesmo e acima de todos os demais bens e pessoas. Deve ser vivida sempre, seja na vida secular cristã, seja na vida cristã religiosa.
- Disponibilidade como atitude interior e exterior ao mesmo tempo: compreende o espírito e a prática efetiva e real da castidade-pobreza-obediência. Deve ser vivida só ocasionalmente na vida secular cristã e, sempre e em todo momento, na vida cristã religiosa.
4.3. Lei da “Criação” e Lei da “Ressurreição”
- Lei da “criação” (Gênesis): “Sede fecundos e multiplicai-vos e enchei a terra e submetei-a” (Gn 1,28).
- Lei da “ressurreição” (Evangelho): promulgada com a vida e a palavra de Jesus esta é a verdadeira e definitiva lei do Reino.
O religioso transcende a lei da criação, renunciando à fecundidade humana, à livre programação da própria vida e ao domínio independente dos bens materiais, para abraçar a lei da ressurreição.
Para convencer seus irmãos de que não pertencem definitivamente a este mundo, o religioso, instala-se na realidade futura e renuncia a valores muito positivos, mas que não pertencem à condição celeste do reino.