Resumo: História satírica de como será a universidade brasileira num futuro distópico.
[Brasil – Início do Século XXII]
Durante uma conferência com vários universitários, um professor da Universidade Antonio Gramsci disse aos ouvintes que, evidentemente, Deus não existe.
-- (...) e, mesmo se existisse, seria impossível podermos alcançá-lo. Logo, a questão “deus” é irrelevante para nós. Além do mais, pra quê perder tempo com perguntas metafísicas, quando há tanta desigualdade e injustiça social? Como acadêmicos, nossa função social é usar nossos conhecimentos para consolidar a Revolução Permanente e também implementar novos planos econômicos do Partido da Democracia Popular, já que o antigo Partido Democrático do Povo traiu os interesses da nação e se aliou à burguesia neoliberal capitalista especulativa internacional. Mas claro, todos sabemos que a Quinta Revolução Democrática eletrocutou os traidores em praça pública e tornou nosso país um lugar melhor do que antes, com mais Liberdade, Igualdade e Pluralidade. Nós, companheiros da nação, temos o dever moral-revolucionário de ajudar o povo, porque o povo, unido, jamais será vencido (....)”
Um aluno não prestou atenção no discurso heróico do professor por estar intrigado com a afirmativa sobre Deus. Assim interrompeu o conferencista, perguntando como se poderia ter certeza que Deus não existe.
Por sua parte, o professor ficou surpreso com a interrupção feita no ápice de seu panegírico. Assim, recompôs-se enxugando as lágrimas e, ao descer do Púlpito Vermelho, um tanto mal-humorado atira: “Como ousa discordar do que eu digo? Você acha mesmo que Deus existe?” (Olhando para a platéia, com ar de mofa) -- “Vejam só, um guri supersticioso que ainda acredita no antiquado discurso religioso...” (Os camaradas da mesa riem).
O aluno fica encabulado. Bastante timidamente, ele ao menos pede, por obséquio, que o professor explicasse porque Deus não existe.
O professor responde: “Deus não existe isso é fato! Todos sabem disso! Companheiro, você não estudou direito o Manual do Revolucionário Mirim? Ou por acaso ainda lê escondido aquelas histórias bíblicas fantasiosas e politicamente incorretas? Foi por isso que eu avisei ao Partido que sou membro-fundador para confiscar os livros religiosos remanescentes, mas o Comitê achou que eram tão poucos que não causariam muita subversão... Além do mais, eu sou professor doutor você deveria me respeitar e se pôr no seu lugar. Você vai ter que estudar muito se quiser chegar onde cheguei.”
-- Mas professor -- diz o aluno --, posso então expor meu ponto de vista, por que acho que Deus existe?
-- Hmm... sim, se estivéssemos no DEMO (Distrito Especial para Manifestações Oratórias) supervisionado pelo Estado, claro que você poderia falar democraticamente o que acha. Só que você se esquece que nossa universidade é laica, assim infelizmente não poderemos ouvi-lo. Queira me desculpar, mas se eu deixasse você falar suas opiniões religiosas pessoais, eu estaria infringindo a lei, pois ninguém mais acredita nessa conversa religiosa desde que a 154.ª emenda da Nova Constituição Bolivariana determinou que a religião fosse proibida por ser uma manifestação pequeno-burguesa e politicamente incorreta. Assim, pedirei educadamente que você cale a boca; respeite os outros e respeite as leis! (O auditório ovaciona o professor). Muitos de nossos antigos companheiros deram a vida para alcançarmos essa sociedade justa, livre e democrática. Mas parece que isso nada significa para você, seu insolente! (Todos xingam o aluno, chamando-o de “reacionário”, “fascista”, “neoliberal”, entre outros impropérios).
-- Não, não, camarada professor! Eu respeito muito a Revolução! Meu avô até morreu na Terceira Revolução Democrática. Eu só queria entender por que é errado dizer que Deus existe...
-- Basta! Por Marx (levantando os braços fazendo o símbolo revolucionário), eu não tenho que tolerar isso! Vá já para a Sala de Orientação e Recuperação! Não posso admitir subversivos inimigos do povo neste espaço público! Para o seu bem, você precisa ser reeducado com os princípios democráticos que regem nosso povo. Vou pessoalmente recomendar ao Comitê de Defesa da Revolução que o transfiram para o Campo de Trabalhos Supervisionados na comuna de Prestesgrado. Espero que sua estadia de quinze meses o faça refletir melhor, e tire essa baboseira clerical de sua mente. Salve o Grande Líder! (“Salve!”, diz os demais em coro).