No Evangelho de hoje, Jesus fala da alegria que há no Céu "por um só pecador que se arrependa".
Mas não fala de uma outra alegria, que, se não é maior que a alegria dos Anjos, não lhe deve ficar muito atrás: é a alegria do próprio pecador que se arrepende.
Jesus só fala da alegria do pastor que reencontra a sua ovelha tresmalhada e da mulher que descobre num canto da casa a moeda perdida, que lhe faria muita falta, se não a recuperasse.
Esta alegria é a imagem da alegria de Deus, quando nos reencontra e nos recupera para o seu amor.
Mas Jesus não fala hoje directamente da alegria daquele que estava perdido e que, num certo momento, levanta os olhos e vê que alguém o encontrou.
Bartolomé Estebán MURILLO, O regresso do filho pródigo (1667-70)
Para a avaliar, podemos imaginar a alegria de uma criança que se perdeu dos pais numa rua muito movimentada de uma cidade desconhecida.
De repente, ao atravessar uma passadeira com muita gente a cruzar-se para os dois lados, ficou ali sozinha sem saber o que fazer, e começou a chorar. As pessoas passavam, olhavam, algumas aproximavam-se, ninguém sabia bem o que fazer. Até que,já com várias pessoas à volta, levantou os olhos a medo, e viu outra vez o pai e a mãe. Que enorme alegria, da criança e dos pais!
E se Jesus não fala desta alegria, é porque deseja que nós a descubramos por nós próprios. Que alegria levantar os olhos, e encontrar, pousado sobre nós, o olhar de Deus!
Foi a alegria do «filho pródigo», apesar de estar muito cansado e com a roupa ainda cheia de lama, quando viu ao longe o pai a olhar para ele, e percebeu que estava há muito tempo à espera dele.
Mas esta alegria não acontece por acaso. Depende de uma condição prévia: o arrependimento, como ensina Jesus. Sem arrependimento, não há alegria.
É este o ensinamento principal de Jesus no Evangelho de hoje. À sua frente, Jesus tinha um grupo de homens que eram do género daqueles "noventa e nove justos que não precisam de arrependimento", e por isso não compreendiam que Jesus acolhesse os pecadores e comesse com eles.
Mas eles próprio nunca tinham sentido a alegria do olhar de Deus, porque achavam que na sua vida estava tudo bem, e possivelmente nunca se tinham arrependido de nada.
Poder arrepender-se é um enorme bem: é a porta da alegria. Mas na nossa sociedade isto é cada vez mais difícil, porque já não se consegue distinguir o bem do mal. E por isso não há arrependimento, não há a dor do mal feito nem a alegria do perdão.
Há umas semanas, numa entrevista dada a jornal de grande expansão, uma actriz de uma telenovela desculpava o comportamento de um seu jovem colega que tinha sido encontrado pela polícia (alegadamente) a sequestrar uma pessoa, como sendo uma coisa normal em jovens daquela idade, que são um pouco irrequietos.
E eu pensei que os jovens podem ser irrequietos e os adultos às vezes podem ser injustos, e toda a gente pode errar em muitas coisas, e até pecar, mas, quando isso acontece, há uma saída: além do que eventualmente possa cair sob a alçada da justiça, há esse cair em si e dizer: Errei, estou arrependido.
E, se tenho fé, há ainda esse grito da alma: Meu Deus, também Te ofendi, perdoa-me, ajuda-me a não voltar a pecar. E temos ainda essa graça espantosa de receber e quase sentir o sinal do perdão, que Deus nos oferece na Confissão sacramental.
Penso que todos nós nos interrogamos sobre o modo como poderíamos mudar esta estranha situação que existe na nossa sociedade: cometem-se bastantes erros, mas procede-se como se não houvesse nenhum mal nisso, e ninguém se arrepende nem sonha em emendar-se.
Mas acredito que há duas vias principais para fazer acontecer essa mudança. A primeira é o caminho da razão, da racionalidade. Há comportamentos que são muito pouco racionais. Para dar só alguns exemplos extremos, é irracional drogar-se, como é irracional ser infiel quando se vive numa aliança de amor com outra pessoa, como é irracional enriquecer há custa de fraudes ou roubos.
Recentemente ouvi na televisão o comentário de uma professora do 8° ano, que ia enunciando a lista das cadeiras dos seus alunos, entre as quais aparecia a certa altura: «Planeamento familiar». E interroguei-me: será racional?
Ou não seria muito mais racional ensinar aos adolescentes o sentido do dom a uma outra pessoa, que um dia poderá vir a acontecer na sua vida, e das condições para que esse dom aconteça, e para que seja um acontecimento feliz?
Em Novembro, na Paróquia de Santa Maria de Belém, (em datas ainda a anunciar), vamos iniciar um ciclo de seis encontros, orientados por especialistas, com o título: «Pré-Adolescência: o Desafio da Educação».
Destina-se aos catequistas, aos responsáveis do Grupo Juvenil, aos pais das nossas crianças e adolescentes e a todos os que quiserem reflectir sobre alguns dos grandes desafios da educação, hoje. Peço que fiquem atentos para o próximo anúncio das datas destes encontros.
Tudo isto no âmbito da racionalidade. A segunda via, para além da razão, é a fé, e entre outras manifestações da fé, está a oração.
A primeira leitura mostra-nos Moisés em oração veemente e insistente pelo povo, que tinha trocado Deus por um bezerro de ouro, a quem começou a oferecer sacrifícios. É um retrato da tendência que há sempre em nós para trocar Deus pelos falsos deuses que nos iludem e parece que nos satisfazem mais.
Mas a oração de Moisés salvou o povo, e a nossa oração pode ajudar muitos a redescobrir a experiência do amor de Deus e do seu perdão.
S. Paulo, dizia, na 2ª leitura: "Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores", e acrescentava, falando de si: "e eu sou o primeiro deles". Apesar dos erros que tinha cometido contra o próprio Cristo, Paulo alcançou misericórdia, e a sua vida foi extraordinariamente intensa e realizada, mesmo por entre grandes dificuldades e provações.
Quanto a nós, está na altura de assumirmos as nossas responsabilidades no mundo, tornando-o mais racional e sobretudo mais confiante em Deus, que devolve a alegria a todos aqueles que, apesar de todos os seus erros, sem desânimo, se põem a caminho, à procura do seu amor e do seu perdão.