A EUCARISTIA É "SACRIFÍCIO"
Viu-se que toda e qualquer oferenda se reduzia a um sacrifício, pelo qual se buscava a comunhão com Deus, significada pela manducação, por cada qual, da parte da vítima oferecida e em uma refeição sagrada. A manducação da parte traduzia a santificação e a comunhão estabelecida de toda a oferenda, dos participantes dela e do ofertante, e Iahweh-Deus.
Com base nessa comunhão é que os primeiros cristãos consideravam a Eucaristia um Sacrifício, tal como o próprio São Paulo o diz:
"Considerai o Israel segundo a carne. Aqueles que comem as carnes sacrificadas, não estão em comunhão com o altar? Que quero dizer com isto? Que a carne sacrificada aos ídolos seja alguma coisa? Ou que os ídolos mesmo sejam alguma coisa? Não! Mas aquilo que os gentios imolam, eles o imolam aos demônios, e não a Deus. Ora, não quero que entreis em comunhão com os demônios. Não podeis participar da mesa do Senhor e da mesa dos demônios" (1Cor 10,18-21).
Esta perícope não teria sentido não fosse a concepção sacrificial da Eucaristia ou Mesa do Senhor. É exatamente pelo fato da "comunhão com o altar", que se estabelece pela manducação da vítima nele santificada, que não se podia participar dos sacrifícios pagãos, como e onde se estabelece a "comunhão com os demônios", também pela manducação, fato incompatível com a "comunhão com o Senhor" no "sacrifício Eucarístico". E, não poderia ser de outra forma, eis que Jesus havia já dito:
"Eu sou o Pão Vivo descido do céu. Quem comer deste Pão viverá eternamente. O Pão que Eu darei é a minha carne para a vida do mundo" (...) Em verdade, em verdade, vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o meu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue é verdadeiramente uma bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, também aquele que comer de mim viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu. ...; quem come deste pão viverá para sempre" (Jo 6,51-58).
É necessário esclarecer aqui que os Evangelistas não se detiveram em explicar o que lhes era peculiar culturalmente. Assim, as características de um sacrifício não foram narradas, bem como o motivo pelo qual os ouvintes entenderam assim ou de outro modo, o anúncio que Jesus então fazia, eis que do conhecimento de todos o que escreviam.
Por outro lado, quando Ele diz "não tereis a vida em vós" remete a outro trecho onde anunciou que "Eu vim para que tenham a vida e a tenham em abundância" (Jo 10,10), tal como havia esclarecido: "..., mas é meu Pai quem vos dá o verdadeiro pão do céu; porque o pão de Deus é o pão que desce do céu e dá vida ao mundo" (Jo 6,32-33); e, confirmado, que "Eu sou o Pão vivo descido do céu", "quem comer deste pão viverá eternamente" e "o pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo" (Jo 6,51). Ao ouvirem Jesus afirmar que "se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o meu sangue não tereis a vida em vós", assustam-se. Compreenderam que Jesus anunciava que iria entregar a sua própria carne para ser "realmente comida" em um sacrifício, não tendo feito uso de metáfora ou símbolo ou muito menos de uma parábola.
Assim o fizesse não o teriam abandonado (Jo 6,66). Os discípulos não o abandonam quando se dissera "luz" (Jo 8,12), "porta" (Jo 10,7), "a ressurreição e a vida" (Jo 11,25), "o caminho, a verdade e a vida" (Jo 14,6), "a verdadeira vide" (Jo 15,1), afastaram-se somente quando se disse "carne, comida". O motivo não pode ser outro que o de comunicar-lhes de que seria a vítima de um sacrifício. Foi essa idéia que não suportaram, abandonando-O. Apesar disso Jesus, desafiando os que lhe ficaram fiéis, pergunta-lhes "se também queriam ir embora" (Jo 6,67), como os outros fizeram, confirmando assim a exatidão da conclusão a que chegaram os dissidentes: - Jesus estava realmente anunciando o "próprio sacrifício". Os que "ficaram" também confirmam com sua resposta o que foi por todos entendido: "... Tens palavras de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que és o Santo de Deus" (Jo 6,68-69). É que Jesus se disse "aquele que, em sendo comido no sacrifício, santifica", ou seja, "a vítima ou a hóstia", "o Santo de Deus"! Apesar da séria dificuldade ensejada, - pois perguntam: "a quem iremos?" (Jo 6,67), - creram em Jesus. Naturalmente não teria havido nenhum óbice, fosse uma ou outra figura de linguagem então usada.
São João Evangelista coloca, significativamente, o Anúncio da Eucaristia logo em seguida à Multiplicação dos Pães, após a qual ocorreu sério desencontro. Ora, os Evangelistas não escreveram nada à toa, nem a disposição dos assuntos foi aleatória, sem motivo. Assim, quando João registra que os opositores de Jesus o desafiaram com o Maná, indica o motivo, o teor e a evocação do debate, e qual o significado que a Multiplicação dos Pães adquiriu para os Apóstolos, tal como ensinado pelo próprio Jesus. É que, após o milagre, protestaram os dissidentes:
"...: Que sinal realizas, para que vejamos e creiamos em ti? Que obra fazes? Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: ‘Deu-lhes Pão do Céu a comer’ " (Jo 6,30-31).
Queriam dizer com isso que Moisés fizera muito maior milagre, alimentando o Povo de Deus no deserto, durante quarenta anos, do que "uma simples distribuição de pães e peixes para cinco mil pessoas", tal como acontecera ali. Jesus lhes dá a resposta e, como de seu costume, contesta-os doutrinando:
"Em verdade, em verdade, vos digo: não foi Moisés quem vos deu o Pão do Céu, mas é meu Pai quem vos dá o verdadeiro Pão do Céu; porque o PÃO DE DEUS é o Pão que desce do Céu e dá VIDA ao mundo" (Jo 6,32-33).
Assim Jesus identifica o VERDADEIRO PÃO DO CÉU como o PÃO DE DEUS, QUE DESCE DO CÉU E DÁ VIDA AO MUNDO, o que não deixa de ter referência clara com o Maná, agora aperfeiçoado pelo "pleno cumprimento" (Mt 5,17) que Ele próprio lhe imprime, por cujo meio DÁ VIDA AO MUNDO. O Maná, por si só, não possuía essa virtude vivificante, tendo sido dado para alimentá-los, tão somente, mesmo que material e espiritualmente, como resposta de Iahweh às murmurações do Povo de Israel:
"Antes fôssemos mortos pela mão de Iahweh na terra do Egito, quando (...) comíamos PÃO com fartura! (...) Iahweh disse a Moisés: ‘Eis que vos farei chover PÃO DO CÉU; sairá o povo e colherá a porção de cada dia..." (...) "Isto é o Pão que Iahweh vos dará para vosso alimento" (Ex 16,3-4.15).
"Todos comeram o mesmo alimento espiritual" (1Cor 10,3).
Assim, tal como o Maná é o PÃO DO CÉU e ALIMENTO, da mesma forma a vítima do sacrifício recebe a mesma denominação, tal como se vê na recomendação de Iahweh com respeito aos sacerdotes:
"Serão consagrados a seu Deus e não profanarão o nome do seu Deus, porque são eles que apresentam as oferendas queimadas a Iahweh, O PÃO DO SEU DEUS, e devem estar em estado de santidade. (...)
"Tu o tratarás como santo, pois oferece o PÃO DO TEU DEUS" (Lv 21,6-8).
Ora, quando se fala em "alimento e pão" se fala em "sacrifício ou refeição sagrada", donde se deduz a que Jesus também se refere ao mencionar o "PÃO DO CÉU OU PÃO DE DEUS", manifestando quem Deus daria para ser vítima para a vida do mundo, recordando-se da missão dos sacerdotes desde sua instituição, ainda no deserto, agora os substituindo (Hb 9,11-14). Pois, a vítima imolada num sacrifício (ou a "oferenda queimada a Iahweh") era considerada "Pão ou Alimento de Deus", aqui e em outros lugares (destacando-se: Lv 1,9; 3,3.11.16; 21,17.21; Nm 9,13;28,1). Também o Maná, da mesma forma que a Vítima dos Sacrifícios, era conhecido simplesmente por "PÃO DO CÉU" ou "ALIMENTO" (‘espiritual’, diz São Paulo), como nos textos acima transcritos. Não foi sem motivo que Jesus faz referências ao PÃO DE DEUS e ao PÃO DO CÉU (Jo 6,33.58), na discussão que travou, identificando-se com ambos e mostrando as diferenças "cumpridas" por Ele (Mt 5,17):
"Este é o PÃO QUE DESCEU DO CÉU, ELE NÃO É COMO O QUE OS PAIS COMERAM E PERECERAM; QUEM COME ESTE PÃO VIVERÁ PARA SEMPRE" (Jo 6,58).
Além disso, existem aspectos na narrativa da Multiplicação dos Pães em São João (6,1-15) que a tornam bem distinta da dos demais Evangelhos, seja situando-a "próxima à Páscoa, a festa dos judeus" (6,4), seja tratando os que se alimentavam como convivas de uma refeição, seja pelo debate ocorrido a respeito do Maná, seja pelo gesto de Jesus que, "tomando os pães, dá graças" (6,11), tal como na Instituição da Eucaristia (Lc 22,19 / 1Cor 11,24). Também, no que evidencia se tratar de um banquete ou de refeição sagrada, o "convite" que transparece quando Jesus diz "onde compraremos pão para alimentá-los" (6,5) e "fazei que se acomodem pelo chão" (6,10), numa acomodação para os "amesendados" (6,10.11 ), - ‘fala como um anfitrião’; na ação de graças peculiar a uma refeição comum ou sagrada ou ao sacrifício de comunhão; bem como, "no recolhimento dos doze cestos do que restou", por se tratar de "coisa santificada" (Ex 29,37 / Jo 6,12-13). Não há outro motivo para se recolher a sobra de uma refeição!
Por outro lado, João também relata que:
"Os judeus murmuravam, então, contra ele, porque dissera: ‘Eu sou o PÃO descido do céu" (Jo 6,41).
Fosse alguma figura de linguagem não haveria motivo para isso. "Murmuravam" porque a afirmação foi muito séria, Jesus se referia a si mesmo e eles o entenderam. Jesus nada corrige e ainda prossegue mais incisivo:
"Eu sou o PÃO VIVO DESCIDO DO CÉU. Quem comer deste PÃO viverá eternamente. O PÃO que eu DAREI é a minha carne para a VIDA DO MUNDO" (Jo 6,51).
Jesus usa o futuro "DAREI a minha carne para a vida do mundo", anunciando a futura doação, seja na Instituição da Eucaristia seja na Cruz, pelo que, da mesma forma, falando sempre numa concretização a se realizar, após a altercação novamente advinda (6,52), é mais incisivo:
"Em verdade, em verdade, vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue, verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, também aquele que comer de mim viverá por mim" (Jo 6,53-57).
Neste ponto e ao finalizar o debate, diz especificamente e se identifica ao Maná, o Pão que desceu do Céu:
"Este é o PÃO que desceu do céu. Ele não é COMO O QUE os pais comeram e pereceram; QUEM COME ESTE PÃO VIVERÁ PARA SEMPRE" (Jo 6,58).
Quando João narra tal acontecimento com tantos detalhes e diz que "estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus" (6,4), relaciona-o diretamente com Ela. É que Jesus estava anunciando e começando então o que iria se "cumprir" nela. Só se pode concluir então que a Multiplicação dos Pães é o "Anúncio da Eucaristia", UM SACRIFÍCIO EM QUE A VÍTIMA "SERÁ" O PRÓPRIO JESUS.