A ?chatequese?

 

Tento sempre fazer algo diferente nos encontros de catequese. Gosto dos tais “gritos de guerra”, que poderíamos chamar de “gritos de paz” para ensiná-los um pouco mais a cultura de paz e não da guerra. Mas tudo bem. Recorro a estes “gritos” ou palavras de ordem, no final de cada encontro de crisma. Reúno a turma toda num círculo, todos espicham o braço até um ponto central e falamos alguma palavra todos juntos. Faço isso como forma de agradecimento pelo encontro que tivemos e com objetivo também de integrá-los um pouco mais.  Numa destas ocasiões, ficamos na dúvida sobre o que dizer neste momento. Era o primeiro encontro da turma.  Foi quando uma menina tomou coragem e sugeriu:

- Porque não gritamos “chatequese”?

 

O riso foi geral. Até eu dei risadas. Gritamos “chatequese”.

 

Depois, lá foram eles embora, apressados para sair da sala, como se o mundo lá fora fosse a extrema liberdade de cada um. Alguns, a caminho de casa. Outros, para os mais variados cursos em que estão matriculados. Desde cedo, muito cedo, esta gurizada já busca a devida qualificação porque mais tarde, enfrentarão a disputa  ferrenha por um lugar ao sol na vida profissional.

 

Na cabecinha destes jovens os encontros de catequese não passam de uma grande chatice. Mas não é só a catequese que eles denominam desta forma: a escola, o curso de inglês, a família, as celebrações, os ensaios e missas, tudo isso é uma grande chatice perfeitamente desnecessária na avaliação de uma boa parte deles.

 

Não foi a primeira vez que ouvi este termo “chatequese”.

Mas porque desdenham tanto assim? Qual o motivo de acharam uma chatice?

Fiquei com isso matutando na cabeça.

 

Quando eu tinha a idade deles eu também achava que a catequese era  uma chatice sem tamanho.

 

Minha catequista era bem diferente de mim e fazia a sua parte, do jeito que podia, numa época diferente da atual.

 

Mal ou bem, lá estava ela, assim como eu faço hoje, disposta a indicar  um outro caminho.

 

Mas eu confesso:  nem lembro mais o nome dela e  nem dos meus colegas, muito menos dos conteúdos  que foram explicados nos encontros de catequese.

 

Ela podia fazer o que quisesse, até plantar bananeira, eu tenho certeza que continuaria achando tudo uma perfeita chatice. Coitada da minha catequista de crisma.

 

Coitado de mim também, como catequista. O que fazer para que tudo não se torne uma chatice mesmo?

 

E hoje, onde os tempos são diferentes e existe mais liberdade de expressão, a Igreja está mais aberta ás inovações e disposta a fazer uma catequese mais dinâmica,  porque é que tudo continua sendo um fardo para estes jovens e crianças? Porque esta gurizada ainda teima em chamar a catequese de  “chatequese”?

 

Pelo que tenho notado, conversado e observado ao longo destes meus 22 anos como catequista, pelos contatos com catequistas de todo o Brasil e por onde tenho andado em palestras e cursos de formação sobre a catequese em diversas cidades, posso enumerar alguns vícios e situações que muitos colegas catequistas tem me apresentado. Não tenho a fórmula certa para melhora, mas é bom que reflitamos a respeito do que vou enumerar e também, possamos acrescentar situações além destas que estou colocando abaixo:

 

 - A maioria dos catequistas tem boa vontade, mas muitos não têm formação adequada. São jogados aos leões. Por isso, duram algum tempo e depois, desistem.

 

 - Alguns coordenadores acham que formação é apenas doutrina. Então, preparam cursos e retiros voltados apenas para a teologia e conteúdos. Esquecem de outros aspectos como o trato com as pessoas, a resolução de conflitos, e o poder e a motivação que qualquer catequista deve ter;

 

- Em algumas comunidades, não há renovação. Os coordenadores são os mesmos a muito tempo. Isso é ruim. Alguns procedem de forma autoritária, sem diálogo, paciência e sem visão de equipe. Prejudicam o trabalho e impedem o surgimento de outras lideranças. Inibem o surgimento de novas idéias;

 

 - Muitos padres não participam e não apóiam a catequese. Não freqüentam os encontros nem para uma visita. Não participam das reuniões com pais e raramente aparecem nas formações de catequistas nem para dar um “oi” ou fazer uma acolhida. Isso desanima os catequistas e as coordenações. A presença do Padre é fundamental para o bom andamento da catequese. Ele não precisa ser o dono de tudo, mas como pastor, é importante que se faça presente, atuante, se dispondo a ouvir os anseios, partilhando soluções, incentivando e encorajando os catequistas. Quando ele não faz isso, a catequese fica mais vulnerável;

 

 - Alguns catequistas pensam que catequese é aula de escola. Não é, nunca foi e nem deve ser. Escola é uma coisa, catequese é outra. Mesmo assim, catequistas não conseguem diferenciar e imitam exatamente o que acontece em qualquer escola normal, contrariando inclusive o que pede o Diretório Nacional da Catequese;

 

- Falta oração. A correria do dia-a-dia às vezes, faz  até mesmo os catequistas esquecerem de rezar. Não há catequese sem reza, sem oração, nem que sejam apenas cinco minutos por dia. Um pai nosso, rezado com calma, dura 30 segundos. Junto com uma ave-maria, não dá mais do que um minuto. Será que não temos um minuto num dia para uma oração? Como fazer com que os jovens e crianças rezem se nós catequistas estamos falhos deste quesito?

 

 - A catequese não é uma empresa. Ela não precisa de resultados práticos, concretos, rápídos. Os seus resultados são abstratos. Os frutos são colhidos ao longo do tempo, não de hoje para amanhã. Por isso, não esperemos grandes mudanças em curto prazo nos nossos jovens e crianças. Pensemos apenas que  estamos fazendo a nossa parte, com a maior alegria possível,  no intuito de indicar um caminho e não impor uma doutrina. É assim que devemos pensar;

 

- A distância da catequese com os grupos de jovens das comunidades, é algo ruim. Catequese e grupo de Jovens deveriam andar juntos. Jovem evangelizando jovem é bacana. Mas, alguns grupos, parecem mais grupos “terceirizados” do que propriamente, grupos de Igreja. Não se misturam com medo de interferência. Em compensação, em algumas paróquias, existe certo preconceito com os jovens, como se eles não fossem suficientemente preparados para um trabalho tão importante como o da catequese. Por isso existe o afastamento, o que é muito ruim para todos.

São algumas reflexões que trago à tona, para que possamos refletir.

 

A catequese é muito importante para ser tratada e chamada de “chatequese”, ainda mais quando vejo e acompanho o empenho e a dedicação de milhares de catequistas, para fazê-la melhor e mais próxima da realidade.

Não sejamos os chatos, mas sim os animadores.

 

Não sejamos os crentes, carolas ou coisas deste tipo,  mas sim, evangelizadores.

Tenhamos a crença de que o caminho que estamos indicando é o melhor. Vivamos também este caminho, com coragem.

Não nos percamos com bobagens e não pensemos em desistir por causa de coisas pequenas no trato com as outras pessoas.

Não nos deixemos  nos abater por causa da falta de interesse dos pais e dos jovens e crianças. Eles precisam do nosso ardor.

Não sufoquemos nossas intenções por causa de ausência dos padres nestes encontros. Aprendamos a conviver com isso, e deixemos claro nos encontros com eles,  o quanto são importantes. A igreja precisa também de mais sacerdotes.

Não nós entreguemos a “chatequese”.

Abaixo a “chatequese”. Que não precisemos ouvir mais isso, de criança alguma.

O nosso compromisso é fazer a catequese cada vez melhor.

Fonte: Alberto Meneguzzi
Postado por: Bruno Souza Nogueira , em 08/12/2009
Artigo nº: 167 Categoria: Catequese
Titulo do Artigo: A ?chatequese?

5 Comentários

Heloisa Helena comentou em 06/04/2010

Vanessa Carla Pereira comentou em 18/06/2009

Geovani comentou em 29/12/2008

Marcia Matos comentou em 07/10/2008

Lucia Helena Fatilli comentou em 03/10/2008

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